sábado, 6 de novembro de 2010

A tradição do conhecimento secreto

Me pergunto que adolescente ficaria indiferente a estas palavras:

Que é que um jovem ou uma jovem deve saber exatamente para poder "estar por dentro"? Em outras palavras: haverá alguma informação reservada, algum tabu especial, algo de secreto na vida e na existência que a maioria dos pais e professores não conhece ou não quer dizer?

É assim que começa Tabu, esse pequeno grande livro de Alan Watts. O título do capítulo deixa a gente curioso: Informe reservado. Foi aí que eu confirmei a tradição a que eu estava ligado. Parafraseando o título do capítulo, eu chamava de Tradição do Conhecimento Secreto. De fato, Watts diz qual é o informe que pode estar reservado. Quem lê o livro, tira suas conclusões. As tradições dessa natureza, afinal, acabam se revelando muito pessoais e, no fundo, integram a história existencial e a sensibilidade que cada de nós vai desenvolvendo ou absorvendo nos anos que antecedem a idade "adulta". A ideia de um "informe reservado" deu voz a uma suspeita intuitiva, atiçando o fogo de minha imaginação. A questão fundamental, você já adivinha, tem a ver com "onde": pois todo segredo, se for mesmo segredo, está em algum lugar (à maneira de um tesouro) ou com alguém (o mestre, o guru). Mas aí, aos poucos você vai descobrindo que se trata duma pequena armadilha, na qual precisa ter cuidado para não cair.
Naqueles anos, eu queria ser diplomata e, de quebra, romancista. Acabei escrevendo um livro: Uma história do Paraíso. Basicamente, eu contava a história da infância, adolescência e começo da idade adulta de dois irmãos: Aguilar e Acundo Comodo. Além dos laços de família, esses dois irmãos eram ainda mais ligados pelo fato de serem gêmeos. Fiz que nascessem no seio duma família rica e poderosa em um imaginário país situado na América Andina. Dei-lhes também uma infinita saudade: a mãe deles, Débora, morre pouco depois de dar à luz. Também eram dotados duma inteligência e intuição de certas coisas da vida, digamos, bastante precoce. Por fim, acentuei em Aguilar a simpatia e a sensibilidade. Bom, é claro que Aguilar carregava em si o fogo da tradição do conhecimento secreto. Com dezessete anos, ele decide que é tempo de aventurar-se no mundo. Eis um trecho:

Dois anos depois, (...) Aguilar partia para o caminho de suas viagens para saber se o Resto do Mundo tinha ou não segredos. Partir significava ficar longe de Adide. Contudo, duma forma infinitamente recôndita, ele parecia ser alertado de que seria bom mais um tempo a fim de completar algo como dez anos de solidão. Mas isso era coisa que ele mesmo não conseguia discernir por que havia de ser assim. Despedir-se de Adide, suspeitando que se afastava dela dum modo totalmente desarrazoado, o angustiou profundamente. Com efeito, estivera a ponto de, na véspera da partida, abandonar a ideia. Mas de repente não era assim tão simples. Algo havia feito ultrapassar nele até mesmo a fantasia de brincar com a certeza de seu pai ("Não há segredos no Resto do Mundo, filho."). E agora tudo dizia respeito a uma porção de outras coisas que estavam profundamente incrustadas em seu espírito.

E Aguilar parte. Passam alguns anos. Ele vive aventuras. Conhece bastante do Resto do Mundo. Então recebe uma carta do irmão: seu pai está muito doente e espera somente a volta de Aguilar para poder morrer. De fato Ascêncio Comodo morre no dia em que seu filho mais inquieto, e talvez mais querido, chega - mas não sem que antes tenham uma longuíssima conversa. É quando Aguilar, pela primeira vez, pede que ele fale sobre sua mãe. Eis um fragmento da fala do narrador em que, pela recordação do pai, Débora parece falar a Aguilar:

E Ascêncio, depois de pensar um pouco, como se estivesse escolhendo numa multidão de coisas, começou dizendo que Débora jamais quis deixar o lugar onde vivia, de modo que ela nunca tinha atravessado as fronteiras das posses de Donostia, jamais tinha se interessado por lugares distantes ou exóticos, como se acreditasse firmemente que as coisas essenciais estavam sempre ao alcance de distância nenhuma, e não de milhares de quilômetros...

É que Aguilar descobre apenas que o Resto do Mundo tem uma porção de coisas, entre bonitas e estranhas; mas, aparentemente, nenhum segredo... Contudo, trata-se duma tradição que precisa ser vivida e então ultrapassada. Pois o segredo está, digamos, do lado de cá, isto é, precisamos aprender a ser mestres e gurus de nós mesmos...

A carta
Aguilar,
Antes de qualquer coisa, papai tem desejado a tua presença, irmão. E vendo-o, sinto nele uma grande inquietação por causa de tua ausência. Isso é quase tão absolutamente inexplicável quanto o fato de lhe terem sucumbido as forças do corpo assim de repente e rapidamente, de modo que insisto para que não demores. Há coisas sucedendo. Confesso que não consigo entender o que se passa. Pela primeira vez me sinto ligeiramente perplexo. Mas nada tem impedido que dê conta da segurança e administração de nossos bens. E ele, de qualquer forma, pede conta de tudo que está acontecendo. Pede contas sobretudo do tempo - e eu tenho dito, como hás de verificar tu mesmo, que a estação das chuvas, que ainda é constante e abundante, vai terminar como deve quando do teu regresso.
Digo ainda que, nos confins de nossos domínios, ninguém se sente infeliz.
E vê bem, irmão: ninguém se sente infeliz e apreensivo com isso que se abateu incompreensivelmente sobre nosso querido pai. Nem mesmo os generais, ouso dizer. Deverás ter de tudo isso a mesma estranha impressão que eu e certamente, sensível como és, teu coração há de se perturbar. Vais ver a realidade fora de tua filosofia, é o que penso.
É com grande saudade que te aguardo tão breve quanto possível.
Acundo

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Breve narrativa

Ela se deixou ficar sem ressentimentos.
Porém nunca sem sentimentos.
Por isso realmente amou quase todos
que se perderam dela.
Mas não fez isso a vida toda.
Não era tola.

Já um certo ele era de perder o dia
de tanto antecipar as horas.
Depois pensava só no evento.
Não tinha caso pra ressentimento.
Mas era tolo de achar
que podia maquiar todo sentimento.
E o tempo que contava desamorosamente
logo seria descontado...

Estes ele e ela jamais se encontraram.
Como moravam no mesmo bairro,
aconteceu apenas de se cruzarem.
E muitas vezes.
Exatamente 352 vezes.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A nação do futuro

Uma potência nacional não se pretende: ou é ou não é; não se anuncia: acontece. Por outras palavras, uma potência não leva o tempo da sua pretensão de acontecer - a ponto de, nesse intervalo, ser insistentemente anunciada. Semelhança disso com certa nação não será mera coincidência...

sábado, 3 de abril de 2010

antevéspera

e
no dia
ficará tudo
talvez como antes
assim como na véspera
tudo se antecipa
para nunca ser
como
é

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Parece que devemos buscar nas pessoas a camada de alegria ou exuberância da sua adolescência ou juventude ou primeira idade adulta, como uma espécie de tesouro da memória de seu corpo - cujo desgaste esconde, muitas vezes, a vitalidade da alma. Especialmente daquelas que podemos amar.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A vida heroica

A diferença entre a nossa e a vida do herói é que a deste se alonga na eternidade do tempo. Ele se eterniza porque sua jornada ou história é partilhada por muitas memórias e atravessam muitas gerações. Por isso está além do tempo. Quanto a você e eu, não acumulamos esse poder nessa escala. No entanto, acredite, tampouco nos anulamos: também acumulamos numa espécie de moeda do tempo - pois temos uma história ou jornada pessoal, ainda que não tão fatal nem tão fantástica quanto a do herói. Mas que é absolutamente reconhecível. E absolutamente sólida, real. Porém aqui é preciso certa qualificação, pois, feliz ou infelizmente, as histórias pessoais não aparecem previamente dadas, determinadas. Mas é que, se assim fosse, simplesmente...não haveria heróis! O paradigma do herói nunca é antecipado, ele se reconhece sempre numa posteridade. E nisto vamos nos assemelhar a ele, você e eu.

Temos (ou não) um pequeno problema aqui. O que o herói acumula na memória dos outros - e você, intuitivamente, talvez saiba disso - depende da escala dos perigos que ele enfrenta. Por um motivo muito singelo: não existem recompensas gratuitas. Contudo, veja só, os vilões bem que acreditam que assim possa ser. E muitos de nós também. E daí as repetidas decepções e erros de cálculo; daí também a infelicidade e a falta de sentido (o herói acumula também sentidos que são elaborados e constituídos ao longo de sua jornada).

Por fim, haverá quem não queira ser herói -quer dizer, iniciar ou percorrer sua jornada pessoal. Haverá quem não queira construir / constituir sua narrativa heroica, pois o que se acumula na memória é exatamente uma narrativa, uma história, e os atributos que lhe dão estofo, forma e significado...